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6 de ago de 2013

Papéis Avulsos - Machado de Assis

ANÁLISE DA OBRA PAPÉIS AVULSOS – MACHADO DE ASSIS

Breve biografia:

Machado de Assis nasce em 1839 – RJ – filho de pai “pardo” e mãe açoriana
1854 - aos 15 anos começa a publicar seus poemas
1855 – torna-se aprendiz de tipógrafo
- Conhece Manuel Antônio de Almeida e Francisco de Paula Brito e passa a colaborar com vários jornais e revistas
1864 – “Crisálidas” – 1º livro de poemas
1870 – “Contos fluminenses” – 1ª coletânea de histórias curtas
1872 – “Ressureição” – 1º romance
Seguem-se: “A mão e a luva”; “Helena”; Iaiá Garcia” (romances)
1881- Memórias Póstumas de Brás Cubas (início do Realismo no Brasil)
1882 – Papéis Avulsos – 1ª coletânea de contos de sua fase realista
Entre 1881 e 1887, escreveu mais de 400 crônicas em “Gazeta de Notícias”
1889 – publica Dom Casmurro
1896 – ajuda a fundar a ABL
1897 – torna-se presidente da ABL
1908 – falece aos 69 anos

A OBRA PAPÉIS AVULSOS

Composta de um prefácio, 11 contos e 1 novela

Pseudônimos: Eleazar, Manassés, Victor de Paula

- Advertência (prefácio: apresentação e defesa)
- O Alienista (novela) – suplemento literário da revista de moda A Estação - 1881
- Teoria do Medalhão
- A chinela turca
- Na arca
- D. benedita – (A Estação)
- O segredo do Bonzo
- O anel de Polícrates
- O empréstimo
- A sereníssima república
- O espelho
- Uma visita de Alcibíades
- Verba testamentária


Segundo observações de John Gledson:

“Em Memórias Póstumas de Brás Cubas e nos contos de Papéis Avulsos, M. A. marca uma ruptura com o passado, no estilo, na narração e nos assuntos de que trata, solta as rédeas à ironia e acha sua voz. Já tinha mais de 40 anos, estava bem casado e era funcionário público bem sucedido”.

“O livro Papéis Avulsos é mesmo um livro, não uma coletânea de, literalmente, papéis avulsos.”

A ideia de unidade está presente nele: “Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de não o perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesa.” – ADVERTÊNCIA

“O assunto meio escondido da coletânea é o Brasil – porém, um Brasil visto indiretamente, às avessas, com ironia, através de excursões no tempo e no espaço.”

­- Rejeição do Realismo “doutrinário”;
- M.A. “A verdadeira ciência não é a que se incrusta para ornato, mas a que se assimila para nutrição”.

POR QUE M. A. TERIA FEITO ESSA INCURSÃO NO IMPROVÁVEL?

- Dois pontos que norteiam a obra:
1º - visão agudamente cética do Brasil, visto como um país em sua “meninice social”, onde a cultura degradou-se e a sociedade acode (...) às touradas, às exibições de monstros, onde o teatro nacional inexiste, onde a violência destrói qualquer ilusão de eleições legítimas, onde reina a corrupção.

2º - a questão de como escrever ficção sobre o Brasil: “esses enredos disparatados são, no fundo, uma recusa de dignificar realidades locais, situando-as prematuramente num contexto ideológico em que não cabem”.

“A chave da unidade e da forma de Papéis Avulsos está na coesão íntima entre fatos e acontecimentos, e experimentação mais ou menos extrema.”

Na obra, Machado:
- demonstra consciência de que poderia ser um escritor brasileiro;
- rejeita o Realismo doutrinário;
- trabalha com experimentação ficcional.

Como cético, escolhe a recusa a todas as afirmações.

ANÁLISE DOS TEXTOS QUE COMPÕEM A OBRA

- Advertência: apresentação da relação de unidade formada pelos textos que compõem a obra: “Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de não o perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesa.”

- O Alienista 

"As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas."

- Texto entre conto e novela (13 capítulos)
- Narrador onisciente – 3ª pessoa
- Presença de interlocução – marca do autor
- Presença de elementos próprios à fase madura de M.A.: análise psicológica e crítica social
- A personalidade é influenciada por forças sociais; por sua vez, a sociedade é influenciada por razões psicológicas. O Alienista, portanto, expressa problemas psicossociais.
- Crítica ao cientificismo exacerbado, ao rigor analítico em voga na época, consequentemente ao Naturalismo.
- Crítica ao fisiologismo presente em revoluções.
- Elemento que contribui para o aspecto universalizante da obra - deslocamento do tempo e do espaço: Itaguaí, comarca de Iguaçu, RJ.; período de el-rei de Portugal D. João V – séc. XVIII, Brasil colônia. 

- Trabalha-se com a fronteira tênue existente entre a sanidade (normal) e a insanidade mental (anormal) e o papel da ciência, na figura de Simão Bacamarte, com a responsabilidade de arbitrar sobre a questão. A apresentação caricata feita de Bacamarte serve como demonstração de que M.A. era cético e crítico quanto ao arbítrio da ciência.

- Simão Bacamarte é protagonista e possui aparentemente um senso de missão. Sendo um homem de ciência, seu mais alto dever é valer-se dela para salvar a sociedade dos insanos e os insanos de si mesmos.

- “Bacamarte”- pode servir como alusão ao chamado “despotismo esclarecido”.

- A pretexto de “conhecer as fronteiras entre a razão e a loucura”, com suas pesquisas sobre a patologia cerebral e com a inauguração da Casa de Orates, Simão Bacamarte, como dá a entender o narrador, tinha o intuito de atingir a glória pessoal, tornando-se a pessoa mais importante de Itaguaí. (Trabalham-se temas como hipocrisia, ambição e vaidade dissimulada, e o egoísmo, uma vez que o médico prejudicava outras pessoas por conta de seu projeto de realização pessoal). Seus conhecimentos e sensibilidade situavam-se aquém de seus intentos. 

Evolução das teorias “bacamarteanas”:

Teoria inicial: são loucos aqueles que apresentarem um comportamento anormal de acordo com o conhecimento da maioria. (comportamento fora do comum)

Teoria mais ortodoxa: "A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades, fora daí, insânia, insânia e só insânia." – (supremacia da Razão sobre tudo que foge a ela)
Teoria completamente reformulada: os loucos são os leais, os justos, os honestos e imparciais. Devia-se admitir como normal o desequilíbrio das faculdades (o que era comum) e como patológico o seu equilíbrio.

Evolução da teoria anterior: o único ser perfeito de Itaguaí era o próprio Simão Bacamarte. Logo, somente ele deveria ir para a Casa Verde.

- Onde estaria o problema a ser desvendado nas teorias de Bacamarte? – Desconsiderar o ser humano como ente complexo dotado não somente de razão, o próprio protagonista não o era, apesar de crer o contrário.

- D. Evarista, sua esposa, admira-o como homem de ciência, admira seu saber, ama-o, mas não deseja que ele leve suas teorias à prática. Tem ciúme de seus estudos e não segue a dieta prescrita por ele a ela. Fora escolhida como esposa porque "reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, estando apta para dar-lhes filhos robustos, sãos e inteligentes". Bacamarte considerava positivo o fato de ela não ser bonita. Chegou a ser recolhida ao sanatório.

- A sociedade de Itaguaí inicialmente o admira, acredita em suas teorias e autoridade de cientista, concorda com sua ciência e faz concessões seguindo o ditado que afirma que “de médico e de louco todo mundo tem um pouco”.
A desconfiança a respeito do julgamento do alienista começa a existir e a se intensificar com o paulatino recolhimento à casa de Orates de pessoas que a população considerava perfeitamente sãs.
Contudo, a população é submissa a quem demonstre espírito de liderança, além de ser facilmente manipulável.

- Crispim Soares, o farmacêutico – boticário -, representa o tipo bajulador, que procura meios de levar vantagem a partir das manias do alienista: “o próprio cachorro bebendo água na sombra do boi.” É amigo muito próximo de Bacamarte e “admira sua obra humanitária”. Foi em dado momento recolhido à Casa Verde por ter se tornado partidário de Porfírio em tempos de revolução.

- Porfírio, o barbeiro, representa a caricatura do político demagogo e oportunista e tem papel fundamental na obra. É uma alegoria da ambição de poder, quando lidera a rebelião que depôs o governo legal. Foi preso na Casa Verde duas vezes; primeiro, porque liderara a rebelião; segundo, porque se negara a participar de uma segunda revolução: "preso por ter cão, preso por não ter cão". (“O Protetor” – alusão a Oliver Cromwell 1653 – Lord Protector)

- João Pina, um rival, mas um igual a Porfírio.

- Padre Lopes, o vigário, era homem repleto de virtudes, o que se tornou motivo para ser internado também no sanatório. Embora não soubesse grego ou hebraico, saíra-se muito bem numa tradução dessas duas línguas. (o contrassenso e o absurdo servem para ressaltar o paradoxo causado pelo racionalismo exagerado)

- A partir do conflito, por força das adversidades, começam a desfilar os tipos sociais e o comportamento de adesismo. Também aparecem os tipos humanos: o pródigo, o novo-rico, o orador de sobremesa, o ingrato.

ALUSÕES:

Porfírio: Oliver Cromwell; Revolta dos Canjicas: revoltas durante o período de Regência no Brasil, como a Balaiada; Capítulos V a X: Revolução Francesa – O Terror – Emigração – A Restauração.

RESUMO

Simão Bacamarte, médico estimado na corte portuguesa, resolve voltar a sua cidade para dedicar-se exclusivamente à Ciência. Ali, elege como objetivo de seus estudos as patologias cerebrais, empenhando-se por criar uma Casa de Orates – manicômio -; algo que consegue em pouco tempo com o apoio das autoridades e consentimento tácito da população local.
Os primeiros a serem internados no hospício foram casos notórios e perfeitamente aceitos pela sociedade de Itaguaí. Porém, em pouco tempo a população começa a ser surpreendida pela noticia de que pessoas consideradas normais haviam sido internadas. O primeiro a causar comoção foi o Costa, que comprometera sua herança em empréstimos que se tornaram fundo perdido. Por sentir-se envergonhado de cobrar seus devedores, passou a ser até maltratado por eles. 
Outro caso foi o da prima do “pródigo” Costa, que ao ir defender seu parente com uma mirabolante história de que a decrepitude financeira se devia a uma maldição, acabou reclusa também. Esses casos começam a ter uma repercussão negativa para a imagem de Bacamarte.
Segue-se o caso do albardeiro Mateus (albardas: selas para bestas de carga), que, ao contrário do que sugere também a palavra albarda – humilhação -, tinha a mania de ficar admirando o luxo da própria casa. (um perfil psicológico muito interessante)
Em função das arbitrariedades de Bacamarte ao recolher essas pessoas à Casa Verde, os humores dos cidadãos de Itaguaí começaram a ficar tensos. Ansiava-se pela volta de D. Evarista, que fora ao Rio de Janeiro para distrair-se devido à falta de atenção que o marido lhe devotava por conta dos estudos. Quando volta, é recebida efusivamente pelos cidadãos de Itaguaí, que acreditavam estar na volta dela a solução dos recentes problemas.
Em um jantar em homenagem a ela, Martim Brito (orador de sobremesa), ao bajulá-la, exalta-se afirmando que Deus queria superar-Se ao criar D. Evarista; foi o que bastou para que, poucos dias após a homenagem, ele fosse internado. 
Seguem-se as internações... Gil Bernardes, porque tinha mania de cumprimentar a todos, inclusive crianças; Coelho, por ser falador a ponto de fazer que as pessoas o evitassem...
Instaura-se, devido a isso, uma atmosfera de indignação e temor, propícia para uma revolução. É quando o barbeiro Porfírio, que há muito ambicionava uma carreira nos bastidores do poder em Itaguaí, vê na instabilidade política e social gerada por Bacamarte – que, para criar o sanatório, recebera apoio das autoridades, inclusive financeiro, para a manutenção dos internos – a oportunidade de organizar um protesto revolucionário com fins altruístas... (na verdade, a internação de Coelho prejudicara alguns negócios importantes dos dois).
Como Bacamarte havia pedido para não ser ressarcido pelos gastos com os internos, os ânimos se arrefecem um pouco, contudo Porfírio consegue levar a curso aquela que ficou conhecida como Revolta dos Canjicas. Os revoltosos vão até a casa de Bacamarte, que os recebe impassível e momentaneamente aplaca-lhes a ira, até, no entanto, voltar-lhes as costas para retornar a seus estudos.
Nesse ínterim, surgem os dragões (polícia) para dispersar os insurgentes; entretanto, a guarda, por também estar descontente com o despotismo do alienista, alia-se a Porfírio, conferindo-lhe poder irrestrito sobre as circunstâncias.
O novo líder resolve então seguir para a Câmara dos Vereadores, conseguindo destituí-la. No dia seguinte, legitimado como senhor da nova ordem, para surpresa de todos, inclusive do leitor, não tira os poderes do alienista, alegando que não tomará parte em questões científicas. Para piorar, manifesta seu apoio às causas sanitárias esposadas pelo cientista, que, preparado justamente para decisões contrárias ao que testemunhara, já identifica no outrora opositor as intenções que este tinha de utilizá-lo de algum modo para fazer a manutenção de seu recém-conquistado poder. É importante ressaltar que houvera mortes na revolução, fato que é perguntado pelo alienista ao novo governante e demonstra  a capacidade do médico de analisar a indiferença que Porfírio tinha pela coletividade.
Os planos de Porfírio, contudo, são frustrados quando o alienista, dias depois, interna 50 partidários da revolução, o que enseja o surgimento de um opositor chamado João Pina, também barbeiro e desafeto declarado de Porfírio, que a pretexto de promover justiça social, utiliza a oportunidade como forma de desforra, levando a termo o poder do Canjica.
Mais uma vez a Casa Verde é poupada...
Crispim, o amigo boticário de Simão Bacamarte, que se mostrara partidário a Porfírio quando este estava no poder, foi internado. A dele, seguiu-se a internação da própria D. Evarista, por sua preocupação exagerada com vestidos e joias e por sua dúvida sobre de que modo deveria apresentar-se em uma festa.
O confinamento da esposa serve para corroborar que as ações de Bacamarte não tangiam interesses outros que não a Ciência. Por outro lado, ficava mais patente ainda o poder despótico do alienista.
Até esse momento haviam sido aplicadas as duas primeiras teorias do cientista, todavia, ao perceber que praticamente 75% da cidade estava reclusa na Casa Verde, o alienista decide rever sua teoria e, para ser fiel à ciência que defendia, solta todos os “loucos”. Graças à constatação estatística, eram eles que determinavam, pela força do paradigma, a normalidade. Começa então a internar as pessoas que fogem a esse paradigma, aqueles com destacada moral, como o vereador Galvão, que se colocara em posição contrária a uma lei que livraria somente os vereadores de serem recolhidos ao sanatório.
Outro a ser recluso é um inimigo de Bacamarte que o avisa de que o alienista estaria correndo risco de ser morto – um caráter tão elevado não poderia ser normal...
Conforme a nova lógica empregada por Bacamarte, Porfírio é internado mais uma vez. Ele não aceitara liderar outra revolta, pois arrependera-se de ter sido de certa forma responsável por duas mortes na Revolta dos Canjicas, quando motivado, sobretudo, por ambições pessoais. 
No caso de outras pessoas que eram conhecidas por terem firmeza de caráter – e por isso terem sido recolhidas ao sanatório – quando demonstravam alguma falha moral passavam a ser consideradas curadas.
A nova teoria, entretanto, começa a deixá-lo desgostoso, porque, pouco a pouco, ele passa a considerar que não existe completa retidão de caráter senão nele mesmo e que, portanto, o anormal era ele. Resultado: solta todos os “loucos” e interna-se sozinho para estudar-se até o final de sua vida.

"Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada".

- Teoria do Medalhão (diálogo)

- Não segue a estrutura tradicional do conto.

- Aproxima-se do gênero dramático. (Não há narrador, somente as falas – discurso direto)

- A história trata-se, na verdade, de um diálogo entre pai e filho, em que o primeiro apresentará ao outro sua Teoria do Medalhão.

- Tempo e espaço estão subentendidos: uma noite na casa das personagens.

- Cria-se inicialmente a expectativa de que o pai transmitirá valores morais importantes ao filho, já que este atingira a idade das escolhas e decisões, contudo, subvertendo a lógica do pai educador e orientador de caráter, o genitor o instrui na arte da dissimulação e da construção de um mito em torno de si, do qual poderá se valer para adquirir vantagens em seu meio social.

- Crítica à mediocridade intelectual, à ambição, à vaidade, à cultura da dissimulação e da aparência, ao uso da ciência como “ornato” em vez de meio de “nutrição” do espírito humano.

- A forma de tratamento entre as duas personagens ilustra a hierarquia familiar, o pai com mais intimidade ao tratar o filho - em segunda pessoa -, e o filho, com formalidade, utilizando pronomes de tratamento em 3ª pessoa, o que sugere a aceitação passiva do filho em relação à doutrina de conduta social exposta pelo pai.

“- Estás com sono? 
- Não, senhor. 
- Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas são? 
- Onze. 
- Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros...
- Papai... 
- Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte e um anos. Mas qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.
- Sim, senhor. 
- Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade. 
- Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá? 
- Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão.”


MEDALHÃO: pessoa respeitada, considerada uma referência moral e intelectual na sociedade, sendo alguém a quem se consulta e admira, cuja fala inspira uma atmosfera de solenidade.

Aparência de medalhão:

“És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. O sábio que disse: "a gravidade é um mistério do corpo", definiu a compostura do medalhão.”


O filho deve evitar expor as ideias próprias, soar original, autêntico e talvez extravagante.
O pai o alerta:

“pode acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas ideias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As ideias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.”

“(...)75 por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses - suponhamos dois anos, - reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das ideias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim... - Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando...
- Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hidra de Lerna, por exemplo, a cabeça de Medusa, o tonel das Danaides, as asas de Ícaro, e outras, que românticos, clássicos e realistas empregam sem desar, quando precisam delas. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento. Caveant consules é um excelente fecho de artigo político; o mesmo direi do Si vis pacem para bellum. Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas não te aconselho esse artifício: seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil. Não as relaciono agora, mas fá-lo-ei por escrito. De resto, o mesmo ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado.”


- Melhor do que parecer introspectivo e mordaz é apelar para fórmula do riso fácil:

“- Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos cépticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça. Que é isto? 
- Meia-noite.
- Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta; estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de Machiavelli. Vamos dormir.”

- A chinela turca

“Vede o bacharel Duarte. Acaba de compor o mais teso e correto laço de gravata que apareceu naquele ano de 1850, e anunciam-lhe a visita do major Lopo Alves. Notai que é de noite, e passa de nove horas. Duarte estremeceu, e tinha duas razões para isso. A primeira era ser o major, em qualquer ocasião, um dos mais enfadonhos sujeitos do tempo. A segunda é que ele preparava-se justamente para ir ver, em um baile, os mais finos cabelos loiros e os mais pensativos olhos azuis que este nosso clima, tão avaro deles, produzira.”

- Narrador onisciente – 3ª pessoa

- Interlocução / conversa com o leitor

- O narrador ilude o leitor ao fazê-lo crer que haverá uma apresentação quase imediata do conflito

- Relação entre realidade e sonho (começa o sonho: Lopo Alves enrola o manuscrito desgostoso com a falta de atenção do interlocutor e vai embora. O baile já estava perdido)

Sai o major, chega um policial:

“- Há de perdoar-me, disse o representante da autoridade. A chinela de que se trata vale algumas dezenas de contos de réis; é ornada de finíssimos diamantes, que a tornam singularmente preciosa. Não é turca só pela forma, mas também pela origem. A dona, que é uma de nossas patrícias mais viajeiras, esteve, há cerca de três anos no Egito, onde a comprou a um judeu. A história, que este aluno de Moisés referiu acerca daquele produto da indústria muçulmana, é verdadeiramente miraculosa e, no meu sentir, perfeitamente mentirosa. Mas não vem ao caso dizê-la. O que importa saber é que ela foi roubada e que a polícia tem denúncia contra o senhor.”

Na verdade a história estava para começar, Duarte seria sequestrado para ser forçado a casar-se e a assinar um testamento em favor da noiva a quem nem conhecia. Entretanto, um falso padre o ajudaria a escapar.
O sonho acaba após algumas aventuras de Duarte. Ele acorda diante do major Lopo Alves, que não lhe percebera o cochilo. 

O narrador apresenta por fim a tese: “o melhor drama está no espectador e não no palco.” 

RESUMO:

A história se passa na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1850. O bacharel Duarte prepara-se para ir a um baile, onde encontrará uma jovem com quem está a namorar há pouco tempo, quando lhe anunciam a visita do major Lopo Alves, velho amigo da família. Causa-lhe horror a visita àquela hora. O major vem lhe dar a notícia de que acabara de escrever um drama. O bacharel custa a crer que isso realmente estava acontecendo com ele, naquela hora da noite, só pensava em Cecília. Empalideceu quando viu o major abrir o rolo que trazia, seria breve na leitura, afinal não passava o drama de cento e oitenta folhas manuscritas. O major começou a leitura, o bacharel mergulhou o corpo e o desespero numa vasta poltrona de marroquim, resoluto a não dizer palavra para ir mais depressa ao termo.
O drama dividia-se em sete quadros. Os sentimentos do bacharel não faziam crer tamanha ferocidade; mas a leitura de um mau livro é capaz de produzir fenômenos ainda mais espantosos.
Neste momento o escritor está preparando o leitor para viver o imaginário que a partir deste ponto da obra vai ser criado pelo bacharel.
Voava o tempo, e o ouvinte já não sabia a conta dos quadros... De repente, viu Duarte que o major enrolava outra vez o manuscrito, erguia-se, empertigava-se, cravava nele uns olhos odiendos e maus, e saía arrebatadamente do gabinete... autor e drama tinham desaparecido. Por que não fez ele isso há mais tempo?
Mal tem tempo de suspirar com alegria, quando o empregado vem anunciar-lhe outra visita. Era a polícia!
Era acusado de furtar uma chinela turca, preciosa. Duarte suspeitou que o homem fosse doido ou um ladrão. Não teve tempo de examinar a suspeita, viu entrar cinco homens armados, que lhe levaram. Meteram-no à força em um carro e partiram.
No carro, os homens confirmam as suspeitas de Duarte, eles não eram da polícia. Chegaram a uma bela casa. Duarte já achava que a chinela vinha a ser pura metáfora; tratava-se do coração de Cecília, que ele roubara, delito de que o queria punir o já imaginado rival. Na casa um homem misterioso apresenta-lhe uma linda moça, muito parecida com Cecília. O homem diz-lhe que três coisas Duarte vai fazer: casar, escrever o seu testamento; e engolir certa droga do Levante (países do Mediterrâneo oriental) ... 
Possuía uma pequena fortuna, deixaria tudo para a moça e depois morreria. Não, não se casaria.
Ao ser chamado, entra um padre, que olha para ele de modo esquisito. Num momento de distração, o padre revela-lhe que era tenente do exército e que ele deveria pular a janela e fugir.
Duarte não hesitou, pulou a Deus misericórdia por ali abaixo. Deu com um segurança, fechou os punhos e bateu com eles violentamente nos peitos do homem e deitou a correr. O homem não caiu. Começou então uma carreira vertiginosa.
Cansado, ferido, ofegante, caiu nos degraus de pedra de uma casa. Um homem que ali estava, lendo um número de Jornal do Comércio, pareceu não o ter visto entrar. Duarte fitou os olhos no homem. Era o major Lopo Alves.
O major exclamou repentinamente: Fim do último quadro.
Duarte olhou para ele, esfregou os olhos, respirou à larga. O major pergunta-lhe “Que tal lhe parece?” “Ah! Excelente!” Respondeu o bacharel, levantando-se. “Paixões fortes, não?” Pergunta-lhe o Major. “Fortíssimas”, responde Duarte.
O Major despediu-se, eram duas horas. Duarte respirou fundo, foi até a janela e disse para si mesmo: - “Ninfa, doce amiga, fantasia inquieta e fértil, tu me salvaste de uma ruim peça com um sonho original, substituíste-me o tédio por um pesadelo: foi um bom negócio. Um negócio e uma grave lição: provaste-me que muitas vezes o melhor drama está no espectador e não no palco.”
 Fonte do resumo: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/a/a_chinela_turca_conto



- Na arca (três capítulos inéditos do Gênesis)

- Conto que foge completamente da estrutura tradicional desse gênero textual.

- Organiza-se em três capítulos (A, B e C) e versículos, nos quais se recria a linguagem bíblica.

- Intertextualidade com o episódio bíblico do dilúvio, em que Javé aconselha a Noé – único homem justo de sua geração – a construir a arca.

- Personagens centrais: filhos de Noé, Jafé, Sem e Cam.

- Crítica à ganância, à cobiça, à inveja e ao espírito de contenda que marca a humanidade de uma maneira geral.

- Jafé e Sem discutem e lutam pela posse de terras e de um rio que são até então hipotéticos, visto que a arca ainda não tinha terra firme na qual atracar.

- Cam tenta apartar a briga, não conseguindo, chama as mulheres dos irmãos e Noé.


Capítulo A

1. — Então Noé disse a seus filhos Jafé, Sem e Cam: — "Vamos sair da arca, segundo a vontade do Senhor, nós, e nossas mulheres, e todos os animais. A arca tem de parai no cabeço de uma montanha; desceremos a ela. 
2. — "Porque o Senhor cumpriu a sua promessa, quando me disse: Resolvi dar cabo de toda a carne; o mal domina a terra, quero fazer perecer os homens. Faze uma arca de madeira; entra nela tu, tua mulher e teus filhos. 
3. — "E as mulheres de teus filhos, e um casal de todos os animais. 
4. — "Agora, pois, se cumpriu a promessa do Senhor e todos os homens pereceram, e fecharam-se as cataratas dó céu; tornaremos a descer à terra, e a viver no seio da paz e da concórdia."


Contudo, ao que a atitude dos filhos de Noé indica, é que ironicamente tudo voltará a ser como antes do dilúvio. A mesma ideia será expressa ao final do conto:


20. — Indo Noé falar, notou que os dois filhos de novo pareciam desafiar-se com os olhos. Então disse: "Ouvi!" Mas os dois irmãos, cegos de raiva, outra vez se engalfinharam, bradando: — "De quem é o rio?" — "O rio é meu." 
21. — E só a muito custo puderam Noé, Cam e as mulheres de Sem e Jafé, conter os dois combatentes, cujo sangue entrou a jorrar em grande cópia. 
22. — Noé, porém, alçando a voz, bradou: — "Maldito seja o que me não obedecer. Ele será maldito, não sete vezes, não setenta vezes sete, mas setecentas vezes setenta. 
23. — "Ora, pois, vos digo que, antes de descer a arca, não quero nenhum ajuste a respeito do lugar em que levantareis as tendas." 
24. — Depois ficou meditabundo. 
25. — E alçando os olhos ao céu, porque a portinhola do teto estava levantada, bradou com tristeza: 
26. — "Eles ainda não possuem a terra e já estão brigando por causa dos limites. O que será quando vierem a Turquia e a Rússia?" 
27. — E nenhum dos filhos de Noé pôde entender esta palavra de seu pai. 
28. — A arca, porém, continuava a boiar sobre as águas do abismo.


· A Rússia, no século XIX) cobiçava uma saída para o Mediterrâneo, cobiçando Constantinopla, e ao mesmo tempo apoiava os súditos ortodoxos da Turquia que estavam nos Bálcãs. Havia uma inimizade entre Turquia e Rússia.

- D. Benedita (um retrato)

- Narrador onisciente em 3ª pessoa.

- Análise da psicologia feminina: indecisão, veleidade/ volubilidade, hesitação e inconstância, vontade sem consistência.

- Interlocução com as “leitoras”.

- Personagens: D. Benedita; Eulália (sua filha); D. Maria dos Anjos (amiga); Leandrinho (filho da amiga); Cônego Roxo (amigo das famílias); Mascarenhas (namorado oculto e futuro marido de Eulália);

- Crítica à mulher burguesa, cuja comodidade material e conveniência tornam-na fraca para decidir-se sobre aspectos de sua vida que poderiam fazer alguma diferença para sua felicidade.

Trechos e resumo:


“A coisa mais árdua do mundo, depois do ofício de governar, seria dizer a idade exata de D. Benedita. Uns davam-lhe quarenta anos, outros quarenta e cinco, alguns trinta e seis. Um corretor de fundos descia aos vinte e nove; mas esta opinião, eivada de intenções ocultas, carecia daquele cunho de sinceridade que todos gostamos de achar nos conceitos humanos. Nem eu a cito, senão para dizer, desde logo, que D. Benedita foi sempre um padrão de bons costumes. A astúcia do corretor não fez mais do que indigná-la, embora momentaneamente; digo momentaneamente. Quanto às outras conjeturas, oscilando entre os trinta e seis e os quarenta e cinco, não desdiziam das feições de D. Benedita, que eram maduramente graves e juvenilmente graciosas. Mas, se alguma coisa admira é que houvesse suposições neste negócio, quando bastava interrogá-la para saber a verdade verdadeira.
D. Benedita fez quarenta e dois anos no domingo, dezenove de setembro de 1869. São seis horas da tarde; a mesa da família está ladeada de parentes e amigos, em número de vinte ou vinte e cinco pessoas. Muitas dessas estiveram no jantar de 1868, no de 1867 e no de 1866, e ouviram sempre aludir francamente à idade da dona da casa. Além disso, veem-se ali, à mesa, uma moça e um rapaz, seus filhos; este é, decerto, no tamanho e nas maneiras, um tanto menino; mas a moça, Eulália, contando dezoito anos, parece ter vinte e um, tal é a severidade dos modos e das feições.”


D. Benedita, 42 anos, casada e com dois filhos, de "feições graves e juvenilmente graciosas" era uma boa pessoa. O marido, desembargador, fora ao Pará a serviço da província, fazia dois anos, estando ausente desde então. No dia do aniversário de D. Benedita, em celebração que contava com muitos convidados, foi feito um brinde ao seu esposo, o que perturbou muito a anfitriã da festa. 
Em conversa de outras personagens, revela-se a história. Dizia-se que o marido de D. Benedita estava envolvido com uma viúva, inclusive tal falto fora relatado certa vez diretamente à esposa. Ela então decidira ir ao encontro do esposo, mas demoveu-se da ideia.
Ela, no dia seguinte, resolveu escrever ao marido “ingrato”. Relatava o assunto principal do dia da festa e pedia a decisão do marido sobre o assunto.

"O cônego Roxo falou-me em casar Eulália com o filho de D. Maria dos Anjos; é um moço formado em direito este ano; é conservador, e espera uma promotoria, agora, se o Itaboraí não deixar o ministério. Eu acho que o casamento é o melhor possível. O Dr. Leandrinho (é o nome dele) é muito bem educado; fez um brinde a você, cheio de palavras tão bonitas, que eu chorei. Eu não sei se Eulália quererá ou não; desconfio de outro sujeito que outro dia esteve conosco nas Laranjeiras. Mas você que pensa? Devo limitar-me a aconselhá-la, ou impor-lhe a nossa vontade? Eu acho que devo usar um pouco da minha autoridade; mas não quero fazer nada sem que você me diga. O melhor seria se você viesse cá."
Acabou e fechou a carta; Eulália entrou nessa ocasião, ela deu-lha para mandar, sem demora, ao correio; e a filha saiu com a carta sem saber que tratava dela e do seu futuro. D. Benedita deixou-se cair no sofá, cansada, exausta. A carta era muito comprida apesar de não dizer tudo; e era-lhe tão enfadonho escrever cartas compridas!”

A filha, contudo, ao saber da proposta de casamento, em um jantar em que o cônego lhe comunicara tais intenções, rejeitou. D. Benedita, no entanto, afirmou que a filha haveria de casar de qualquer modo. Ignoravam que a moça tinha um amor: um oficial da marinha - Mascarenhas.
Após um jantar na casa de D. Maria dos Anjos, D. Benedita repentinamente tem o desejo de ir visitar o marido, chamando a filha para ajudá-la para que se organizassem para uma viagem de três meses.
Ao noticiar a viagem aos amigos, não se vê reação de muito espanto por parte deles, o que dá a entender que D. Benedita já anunciara viagens como aquela antes, sem, contudo, levá-las a termo. Logo depois, o mesmo ocorreria a essa viagem. 
A filha então arrumou uma festa. Era de uma família do Andaraí. De uma hora para outra D. Benedita fora apresentada ao Mascarenhas, ficara encantada. Oferecera-lhe um jantar e, para sua surpresa, quando na visita de Mascarenhas à sua casa, recebeu dele o pedido para que o marinheiro, futuro almirante, se casasse com Eulália.
D. Benedita, encantada pelo aura de “sonho” que envolvia os acontecimentos e o rapaz – que a impressionara tanto-, além das gentilezas do moço, consentiu o matrimônio, esquecendo-se da promessa anterior de casar a filha com Leandrinho.
Nova carta foi endereçada ao desembargador (marido de D. Benedita), pedindo novo consentimento. Este, que já consentira o primeiro, fez o mesmo em relação ao segundo, lamentando não estar presente à cerimônia, uma vez que estava doente. Um dia após o recebimento da resposta, como fora prometido pela mãe de Eulália, realizou-se a cerimônia.
Passados 15 dias do enlace entre a filha e Mascarenhas, chegou a informação de que o desembargador havia morrido.
D. Benedita cogitou de ir ao Pará para erigir um túmulo para o falecido. Encomendou-se o túmulo, mas ela não foi.
Com o passar do tempo, a disciplina de Mascarenhas começou a incomodá-la, pois suas ações lhe pareciam teimas, embora não o fossem. Assim o pareciam por conta da inconstância da sogra em sustentar as próprias decisões.
Quando este foi enviado a servir no Sul, Eulália, que estava grávida, ficou com a mãe.
Nesse ínterim, apareceu um negociante viúvo que começou cortejar D. Benedita e lhe propôs casamento. Ela começou a devanear sobre a hipótese de ter um companheiro, coisa que já não ocorria em verdade já antes de sua viuvez, contudo acabou não casando.
O genro voltou do sul. O neto nasceu robusto. Poucos meses se passaram e genro, filha e neto foram para o Norte. A viúva ficou triste, a companhia do filho não lhe era o bastante. A ideia de viajar começou a “rutilar-lhe a mente”, mas “como um fósforo” logo se apagou.
A ideia de casar-se então novamente surgiu-lhe forte, também como uma forma de voltar à sociedade, desta vez com um advogado. Mas sempre a dúvida.

Enquanto conjeturava sobre casar-se ou não, eis que:

“Uma noite, volvendo D. Benedita este problema, à janela da casa de Botafogo, para onde se mudara desde alguns meses, viu um singular espetáculo. Primeiramente uma claridade opaca, espécie de luz coada por um vidro fosco, vestia o espaço da enseada, fronteira à janela. Nesse quadro apareceu-lhe uma figura vaga e transparente, trajada de nevoas, toucada de reflexos, sem contornos definidos, porque morriam todos no ar. A figura veio até ao peitoril da janela de D. Benedita; e de um gesto sonolento, com uma voz de criança, disse-lhe estas palavras sem sentido:
- Casa... não casarás... se casas... casarás... não casarás... e casas... casando ...
D. Benedita ficou aterrada, sem poder, mexer-se; mas ainda teve a força de perguntar à figura quem era. A figura achou um princípio de riso, mas perdeu-o logo; depois respondeu que era a fada que presidira ao nascimento de D. Benedita: Meu nome é Veleidade, concluiu; e, como um suspiro, dispersou-se na noite e no silêncio.”


- O segredo do Bonzo (capítulo inédito de Fernão Mendes Pinto)

Narrado em 1ª pessoa, tendo como subtítulo "Capítulo inédito de Fernão Mendes Pinto", o conto O segredo do Bonzo surge da narração de um fato absurdo, mas que possui um profundo sentido: a virtude e o saber tem duas existências paralelas: uma no sujeito possuidor; outra, no espírito de quem ouve ou contempla, pois "não há espetáculo sem espectador". A moral do conto é: "a essência é a aparência". 

Fernão Mendes Pinto (1510-1583) viajante e escritor português de vida bastante acidentada. No livro póstumo, Peregrinações, deixou registradas as aventuras e as observações das viagens que fez pelo Extremo Oriente. Suas narrativas foram consideradas, durante muito tempo, puras invencionices, inspirando o trocadilho: Fernão, mentes? - Minto.

Segundo o narrador, "uma coisa pode existir na opinião sem existir na realidade" e vice-versa. Por isso, "não nos cabe inculcar aos outros uma opinião que não temos, e sim a opinião de uma qualidade que não possuímos". O conto analisa a capacidade que alguns homens têm de persuadir o próximo.

Com O Segredo do Bonzo (publicado em Papéis Avulsos, de 1882), Machado de Assis retoma uma disputa teológica narrada por Mendes Pinto: no exótico Japão, um padre português é invejado por sacerdotes budistas devido aos favores que o rei lhe dispensava. Percebendo as discretas indicações de Mendes Pinto, que, propositadamente, omite a resposta do padre aos Bonzos, o escritor brasileiro escapa ao óbvio, pois percebe que toda a disputa, aparentemente religiosa, na verdade consistia numa luta pelo prestígio social e favores reais, transformando, assim, os Bonzos em charlatões que enriquecem às custas da crendice do povo e desmascarando a predominância da opinião sobre a realidade das coisas.

O narrador do conto O segredo do Bonzo fala do que viu na cidade de Funchéu, onde andava com um amigo, Diogo Meireles. Em um ajuntamento de pessoas, alguém que se dizia matemático, físico e filósofo, afirmava ter descoberto a origem dos grilos: eles surgem da agitação do ar e das folhas de coqueiros. Em outra multidão, um homem dizia ter descoberto o princípio da vida futura, que estava em “uma certa gota de vaca”. O narrador então fica sabendo que nos dois casos estava sendo aplicada uma doutrina criada por um homem de muito saber, um bonzo de nome Pomada.

As duas personagens fazem uma visita ao sábio Pomada, que assim resume sua doutrina: “A virtude e o saber tem duas existências paralelas: uma, no sujeito que as possui, outra no espírito dos que o ouvem ou contemplam.” Assim, segue o sábio, uma coisa pode existir na opinião sem existir na realidade. De outro lado, uma coisa pode existir na realidade sem existir na opinião. Disso ele conclui que “das duas realidades paralelas, a única necessária é a da opinião”. Eis aí a essência do pomadismo. O bonzo pomadista, como se vê, monta sua doutrina a partir de uma afirmação trivialmente verdadeira: uma coisa pode existir na opinião sem existir na realidade, e existir na realidade sem existir na opinião. A seguir o bonzo conclui: a única existência necessária é a da opinião. Isso, diz ele, é um “achado especulativo”. O jogo do bonzo, diz o narrador, consiste em “meter idéias e convicções nos outros”. Um de seus seguidores, Titané, o alparqueiro, usa o jornal para propagandear suas alparcas comuns, fazendo crer que elas são maravilhosas. O narrador do conto, por sua vez, ao praticar a doutrina, faz de conta que toca a charamela (um antepassado da clarineta) para uma audiência que se maravilha ouvindo ... nada! Diogo Meireles, por sua vez, encontra pessoas portadoras de uma doença que torna os narizes horrendos, e convence-as a deixarem que ele arranque os narizes. Eles serão substituídos por um “nariz são, mas de pura natureza metafísica, isto é, inacessível aos sentidos humanos”. Os viventes, desnarigados, ficam muito felizes com o novo nariz inexistente.

Nota: Bonzo = monge, servidor de um templo, estudioso de teologia e outras ciências humanas. No oriente antigo (século V a XV), a tradução da palavra Bonzo se refere ao homem religioso, sacerdote ou não, que por sua cultura geral, serve de conselheiro, psicólogo, curandeiro de males físicos e espirituais, além de mediador de discussões e desentendimentos em sua comunidade.

Análise e resumo retirados do site www.passeiweb.com:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/o/o_segredo_do_bonzo_conto


- O anel de Polícrates

- Conto que também rompe com a estrutura convencional desse gênero textual, pois a história é narrada na conversa entre duas personagens A e Z. (proximidade do gênero dramático)

- Não há narrador propriamente dito, mas uma personagem que narra.
- Aspecto experimentalista de M.A.

- Presença ostensiva de intertextualidade – além do próprio título do conto, as referências explícitas a Homero, Plínio, Péricles e Allan Poe.

- Protagonista: Xavier, homem pródigo de ideias que, contudo, não conseguia se valer delas para escrever uma grande obra literária.

- Conflito: Xavier “lança” sua ideia, que considera especial, desejando reencontrá-la, como fora o caso do anel de Polícrates, o que, no entanto, não acontece.



O conto apresenta-se em forma de diálogo entre as personagens “A” e “Z”, sobre a vida de um conhecido em comum, Xavier. Porém parece que não estão falando da mesma pessoa, para “A”, Xavier é um homem rico, fértil em ideias, e muito feliz, já para “Z”, Xavier é um homem humilde, como ele próprio diz “não é mendigo, nunca foi nababo (nobre)”. “A” então adverte que ele está falando do Xavier interior e “Z” está falando do Xavier exterior. E “A” passa a narrar as diversas ideias de Xavier, até que um dias, essas se esgotam. É quando Xavier, ao olhar pela janela, vê um cavaleiro passando... 

“De repente, o cavalo corcoveou, e o taful (janota) veio quase ao chão; mas sustentou-se, e meteu as esporas e o chicote no animal; este empina-se, ele teima; muita gente parada na rua e nas portas; no fim de dez minutos de luta, o cavalo cedeu e continuou a marcha. Os espectadores não se fartaram de admirar o garbo, a coragem, o sangue-frio, a arte de cavaleiro. Então o Xavier, consigo, imaginou que talvez o cavaleiro não tivesse ânimo nenhum; não quis cair diante de gente, e isso lhe deu a força de domar o cavalo. E daí veio uma idéia: comparou a vida a um cavalo xucro ou manhoso; e acrescentou sentenciosamente: Quem não for cavaleiro, que o pareça.” 

“Conhece o caso do anel de Polícrates?” É dessa maneira que “A” introduz o mito de Polícrates na narração. 

“(...) Polícrates governava a ilha de Samos. Era o rei mais feliz da terra; tão feliz, que começou a recear alguma viravolta da Fortuna, e para aplacá-la antecipadamente, determinou fazer um grade sacrifício: deitar ao mar o anel precioso que, segundo alguns, lhe servia de sinete. Assim fez; mas a Fortuna andava tão apostada em cumulá-lo de obséquios, que o anel foi engolido por um peixe, o peixe pescado e mandado para a cozinha do rei, que assim voltou à posse do anel. Não afirmo nada a respeito desta anedota; foi ele quem me contou, citando Plínio, citando... 
(...) 
Experimentemos a fortuna, disse ele; vejamos se a minha ideia, lançada ao mar, pode tornar ao meu poder, como o anel de Polícrates, no bucho de algum peixe, ou se o meu caiporismo (azar) será tal, que nunca mais lhe ponha a mão.” 

Xavier, tendo a ideia em alto conceito, resolve “semeá-la” na mente de um amigo por meio de uma conversa cheia de conteúdo dramático, a qual o ajudaria a dar vida à máxima de sua autoria.

Sua frase de efeito, então, reaparecerá para ele pouco tempo depois, algumas vezes, reformulada, com nova roupagem mais ou menos dramática, seja em uma conversa fortuita entre colegas num restaurante, num baile, no comentário escrito em um jornal, numa comédia de autoria de um amigo ou na última sentença de um moribundo. Contudo, ele nunca conseguirá se apossar novamente dela.


- O empréstimo

- Narrador em 3ª pessoa

- Interlocução e ironia fina

- Protagonistas: Vaz Nunes, tabelião avaro, e Custódio, empreendedor marcado pelo caiporismo e entusiasmo; quer investir em um empreendimento de agulhas. Diante das negativas de Vaz, Custódio barganha, sem revelar que abriria mão do negócio, mas de qualquer modo seria bom ter algum dinheiro para pagar contas atrasadas. Pedir e negar começam a assemelhar-se com um esporte, em que mais importante que a finalidade do dinheiro, é o jogo de tentativa e negativa.

Introdução:

“Vou divulgar uma anedota, mas uma anedota no genuíno sentido do vocábulo, que o vulgo ampliou às historietas de pura invenção. Esta é verdadeira; podia citar algumas pessoas que a sabem tão bem como eu. Nem ela andou recôndita, senão por falta de um espírito repousado, que lhe achasse a filosofia. Como deveis saber, há em todas as coisas um sentido filosófico. Carlyle descobriu o dos coletes, ou, mais propriamente, o do vestuário; e ninguém ignora que os números, muito antes da loteria do Ipiranga, formavam o sistema de Pitágoras. Pela minha parte creio ter decifrado este caso de empréstimo; ides ver se me engano.

E, para começar, emendemos Sêneca. Cada dia, ao parecer daquele moralista, é, em si mesmo, uma vida singular; por outros termos, uma vida dentro da vida. Não digo que não; mas por que não acrescentou ele que muitas vezes uma só hora é a representação de uma vida inteira? Vede este rapaz: entra no mundo com uma grande ambição, uma pasta de ministro, um Banco, uma coroa de visconde, um báculo pastoral. Aos cinquenta anos, vamos achá-lo simples apontador de alfândega, ou sacristão da roça. Tudo isso que se passou em trinta anos, pode algum Balzac metê-lo em trezentas páginas; por que não há de a vida, que foi a mestra de Balzac, apertá-lo em trinta ou sessenta minutos?

Tinham batido quatro horas no cartório do tabelião Vaz Nunes, à rua do Rosário. Os escreventes deram ainda as últimas penadas: depois limparam as penas de ganso na ponta de seda preta que pendia da gaveta ao lado; fecharam as gavetas, concertaram os papéis, arrumaram os livros, lavaram as mãos; alguns que mudavam de paletó à entrada, despiram o do trabalho e enfiaram o da rua; todos saíram. Vaz Nunes ficou só.

Este honesto tabelião era um dos homens mais perspicazes do século. Está morto: podemos elogiá-lo à vontade. Tinha um olhar de lanceta, cortante e agudo. Ele adivinhava o caráter das pessoas que o buscavam para escriturar os seus acordos e resoluções; conhecia a alma de um testador muito antes de acabar o testamento;” (...)
A seguir, breve análise retirada do site Passei na Web:

Em O empréstimo, o autor apresenta o tabelião Vaz Nunes, em um final de expediente, recebendo a visita de Custódio, que veio lhe pedir dinheiro. O primeiro tem a capacidade de desvendar o interesse que se esconde atrás da aparência, o segundo tem “a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho”. Nessa hora em que se confrontam, revela-se a natureza de cada um deles. Machado mergulha com precisão detalhista no gesto de olhar por cima dos óculos, no movimento dos braços, no modo de pegar a carteira, na maneira de caminhar de cabeça erguida. 

O leitor acompanha o confronto de disfarces entre os dois cavalheiros. A cada lance desse jogo, cada um dos contendores aparenta estar jogando a sua última cartada, ao mesmo tempo que cada uma das partes disfarça os trunfos de que ainda dispõe: a elasticidade da ambição, de um lado, e a capacidade de concessão, do outro. Encerrada a contenda, ambos parecem sair satisfeitos com o próprio desempenho cujo ganho é mínimo para um e a perda insignificante para o outro.

http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/p/papeis_avulsos


- A sereníssima república (conferência de cônego Vargas)

- O narrador seria o cônego Vargas, uma vez que o texto simula um discurso conferido por ele.

“Meus senhores,
Antes de comunicar-vos uma descoberta, que reputo de algum lustre para o nosso país, deixai que vos agradeça a prontidão com que acudisses ao meu chamado. Sei que um interesse superior vos trouxe aqui; mas não ignoro também, — e fora ingratidão ignorá-lo, — que um pouco de simpatia pessoal se mistura à vossa legítima curiosidade científica. Oxalá possa eu corresponder a ambas.

Minha descoberta não é recente; data do fim do ano de 1876. Não a divulguei então, — e, a não ser o Globo, interessante diário desta capital, não a divulgaria ainda agora, — por uma razão que achará fácil entrada no vosso espírito. Esta obra de que venho falar-vos, carece de retoques últimos, de verificações e experiências complementares. Mas o Globo noticiou que um sábio inglês descobriu a linguagem fônica dos insetos, e cita o estudo feito com as moscas. Escrevi logo para a Europa e aguardo as respostas com ansiedade. Sendo certo, porém, que pela navegação aérea, invento do padre Bartolomeu, é glorificado o nome estrangeiro, enquanto o do nosso patrício mal se pode dizer lembrado dos seus naturais, determinei evitar a sorte do insigne Voador, vindo a esta tribuna, proclamar alto e bom som, à face do universo, que muito antes daquele sábio, e fora das ilhas britânicas, um modesto naturalista descobriu coisa idêntica, e fez com ela obra superior.

Senhores, vou assombrar-vos, como teria assombrado a Aristóteles, se lhe perguntasse: Credes que se possa dar um regime social às aranhas? Aristóteles responderia negativamente, com vós todos, porque é impossível crer que jamais se chegasse a organizar socialmente esse articulado arisco, solitário, apenas disposto ao trabalho, e dificilmente ao amor. Pois bem, esse impossível fi-lo eu.

Ouço um riso, no meio do sussurro de curiosidade. Senhores, cumpre vencer os preconceitos. A aranha parece-vos inferior, justamente porque não a conheceis. Amais o cão, prezais o gato e a galinha, e não advertis que a aranha não pula nem ladra como o cão, não mia como o gato, não cacareja como a galinha, não zune nem morde como o mosquito, não nos leva o sangue e o sono como a pulga. Todos esses bichos são o modelo acabado da vadiação e do parasitismo. A mesma formiga, tão gabada por certas qualidades boas, dá no nosso açúcar e nas nossas plantações, e funda a sua propriedade roubando a alheia. A aranha, senhores, não nos aflige nem defrauda; apanha as moscas, nossas inimigas, fia, tece, trabalha e morre. Que melhor exemplo de paciência, de ordem, de previsão, de respeito e de humanidade? Quanto aos seus talentos, não há duas opiniões. Desde Plínio até Darwin, os naturalistas do mundo inteiro formam um só coro de admiração em torno desse bichinho, cuja maravilhosa teia a vassoura inconsciente do vosso criado destrói em menos de um minuto. Eu repetiria agora esses juízos, se me sobrasse tempo; a matéria, porém, excede o prazo, sou constrangido a abreviá-la. Tenho-os aqui, não todos, mas quase todos; tenho, entre eles, esta excelente monografia de Büchner, que com tanta subtileza estudou a vida psíquica dos animais. Citando Darwin e Büchner, é claro que me restrinjo à homenagem cabida a dois sábios de primeira ordem, sem de nenhum modo absolver (e as minhas vestes o proclamam) as teorias gratuitas e errôneas do materialismo.

Sim, senhores, descobri uma espécie araneida que dispõe do uso da fala; coligi alguns, depois muitos dos novos articulados, e organizei-os socialmente. O primeiro exemplar dessa aranha maravilhosa apareceu-me no dia 15 de dezembro de 1876.(...)”

O conferencista então expõe sua experiência de ajudar a criar uma república de aranhas que receberá o nome de Sereníssima República. O governo, entretanto, passará a ser marcado por fraudes nas eleições. 

Assim termina:

“Encarregado de notificar a última resolução legislativa às dez damas incumbidas de urdir o saco eleitoral, Erasmus contou-lhes a fábula de Penélope, que fazia e desfazia a famosa teia, à espera do esposo Ulisses.

— Vós sois a Penélope da nossa república, disse ele ao terminar; tendes a mesma castidade, paciência e talentos. Refazei o saco, amigas minhas, refazei o saco, até que Ulisses, cansado de dar às pernas, venha tomar entre nós o lugar que lhe cabe. Ulisses é a Sapiência.”

No conto, evidencia-se o ceticismo de M.A. em relação à forma de governo republicano, ao fazer alusão à história da Odisseia, na qual Ítaca, terra governada pelo rei Ulisses, em ocasião de sua ausência, se vê disputada pelos antigos convivas de seu reino, que ainda desejam tomar a mão de sua esposa Penélope em casamento. Graças a artimanhas desta, isso não ocorre até a volta de Ulisses.


- O espelho (esboço de uma nova teoria da alma humana)


Machado de Assis esboça em O Espelho uma nova teoria da alma humana, subtítulo que dá para o conto; aliás, um estudo sobre o espírito contraditório do homem, simbolizado pelo espelho. Tem como tema a alma humana, metaforizada no espelho. Carregado de simbolismo e significados que vão da filosofia à mitologia, o espelho é um antigo tema ligado à alma e, neste conto, representa a alma exterior de Jacobina, personagem principal da narração. O conto trata, pois, da dualidade da alma, da alma externa e da alma interna, do homem como um ser controvertido, dividido entre o consciente e o inconsciente.
Neste conto, o autor ironiza a sociedade da época em uma das mais arraigadas crenças do povo cristão, que é a existência de uma única alma portadora de expressão única e inabalável até então.
Ao escrevê-lo, Machado de Assis lança a idéia de que o indivíduo está sujeito a duas "almas". Segundo ele, o ser possui uma alma interna, a qual "olha de dentro para fora" transmitindo seus anseios particulares e valorizando sua consciência individual. Além disso, há uma alma externa, que "olha de fora para dentro", composta de valores alheios ao indivíduo que são, porém, indispensáveis para a concepção do mesmo. Machado exemplifica: "a alma exterior daquele judeu (Shylock) eram seus ducados; perdê-los equivalia a morrer".
O conto em questão tem início e fim com o foco narrativo em terceira pessoa; neste intervalo ocorre o discurso do personagem principal, Jacobina, que narra “um caso de sua vida” aos cavalheiros presentes na “casa do morro de Santa Tereza”.
A narrativa de Jacobina é linear, interrompida uma vez ou outra por pequenas perguntas dos outros cavalheiros que o ouviam atentamente, mas significativamente interrompida uma única vez pelo narrador em terceira pessoa que denuncia: “Santa Curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia”(p. 347).
Na trajetória de sua narrativa, o personagem percorre o caminho da tradição bíblica, mitológica, literária e filosófica para melhor expor os acontecimentos, afinal, como ele mesmo diz, “os fatos são tudo”.
Trata-se da história de Jacobina, rapaz pobre que se torna alferes aos 25 anos, nomeação que gerava status e despertava inveja em muitas pessoas, “Houve choro e ranger de dentes”. Era um rapaz pobre; seu fardamento foi dado por amigos e depois disso passou a ser visto como o cargo que ocupava na guarda nacional, “o alferes eliminou o homem”.
Sua tia Marcolina convidou-o a passar uns dias em seu sítio e cercando-o de mimos por todos os lados, mandou colocar um grande espelho, relíquia da casa, em seu quarto, “obra rica e magnífica”. Tudo corria bem, até que sua tia Marcolina recebe notícias da doença de sua filha e viaja para vê-la, deixando-o sozinho com os escravos.
Jacobina sentiu uma grande tristeza, “coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere”, e os escravos o trataram muito bem, era “nhô alferes, de minuto a minuto”. Mas no dia seguinte Jacobina estava só, os escravos haviam fugido, e com eles todos os paparicos, não havendo ninguém mais no sítio, “nenhum ente humano” para reconhecer nele o “alferes”. Jacobina perdera então sua motivação para a vida, “nunca os dias foram mais compridos”. Tinha medo de olhar-se no espelho, “era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois”. Não era mais possível ver sua imagem refletida no grande espelho. Sua imagem era agora difusa, e sua figura era completa apenas nos sonhos, “o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior”. Até que ele tem a idéia de colocar a farda e olhar-se diante do espelho. Assim fardava-se uma vez ao dia e colocava-se diante do espelho, retomando sua identidade, já “não era mais um autômato, era um ente animado”.
Revela-se no início da narrativa um tom de incerteza e volubilidade das coisas, que permeia toda a estrutura do texto. O conto começa com “quatro ou cinco cavalheiros" que debatem acerca da natureza da alma, sobre metafísica enfim.

“Por que quatro ou cinco?” Porque o quinto personagem, Jacobina, mantém-se quieto durante a conversa e somente se propõe a contar um caso de sua vida se os outros lhe ouvirem calados.

“Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos” (p. 345).

Na caracterização do ambiente, assim como da narrativa, cria-se uma atmosfera difusa na descrição da casa do morro de Santa Tereza, cuja “luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora”. Também, quando o narrador se refere a “quatro ou cinco cavalheiros”, ou lhes atribui a idade de “quarenta ou cinqüenta anos”, desencadeia-se no texto uma duplicidade, um turvamento de imagens.

“Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de cousas metafísicas” (v. 2, p. 345). 

Com esta frase, “Entre a cidade..., e o céu...”, o narrador machadiano faz uma alusão, a qual nos remete, embora com o uso de outras palavras, à célebre frase de Shakespeare, “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”.

A seguir, Jacobina descarta a possibilidade de conjeturar sobre coisas metafísicas e assim se dispõe a contar aos cavalheiros um caso concreto de sua vida e inicia seu relato:

"Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro(...)." (p. 346).

E assim, Jacobina define a alma “metafisicamente falando”, como “uma laranja”. Utilizando-se da citação literária para melhor expor seus argumentos, e melhor esclarecer sobre a alma exterior das pessoas, o narrador machadiano cita Shylock, personagem da peça O Mercador de Veneza de Shakespeare. 

A alma exterior daquele judeu eram os seus ducados: perdê-los equivalia a morrer. Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração. Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele (p. 346).

Com maestria, Machado traz da peça de Shakespeare a cena que mostra a verdadeira alma de Shylock, um judeu que no auge de sua avareza prefere a filha morta a perder suas pedras e ducados. Por meio dessa citação, Jacobina consegue transpor para o conto a “alma exterior” do judeu ao citar o momento em que ele recebe de Tubal notícias de que sua filha Jéssica teria gasto, em apenas uma noite em Gênova, oitenta ducados do dinheiro que lhe havia roubado.

"O ofício da segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira" (p. 346).

Continuando a expor sobre a alma e a capacidade de transformação de sua natureza, Jacobina deixa claro que não se refere a certas almas absorventes. Assim cita a pátria de Camões como sua absorvente alma exterior e o poder como alma externa e única de César, imperador romano, e de Cromwell, estadista inglês.

"- Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras embora enérgicas, de natureza mudável". (p. 346).

Essas referências levam, primeiramente, à história de Camões e seu poema épico Os Lusíadas, obra que exalta o povo português e é dedicada a D.Sebastião, rei de Portugal na época de sua publicação. 

Voltando aos estadistas, Jacobina cita César e Cromwell, ditadores que viveram e tudo fizeram pelo poder, e embora tendo recusado o título de rei, ambos morreram soberanos em seu próprio despotismo.

Se pensar na alma externa como uma motivação para a vida, ou seja, os objetos de desejos de uma pessoa, essa alma será “de natureza mudável”.

"Pela minha parte, conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano.
- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião..." (p. 347).

Jacobina alude à Bíblia quando chama de “Legião” a senhora que troca de alma exterior por várias vezes no ano. Citações bíblicas são frequentemente encontradas em sua obra. Nesse trecho, Jacobina refere-se à passagem bíblica “O endemoninhado geraseno” (Mc 4-5), na qual Jesus se depara com um homem possuído que morava no cemitério e apresentava fenômenos misteriosos.

O narrador fala a seguir da “Santa curiosidade” e a denomina como alma da civilização e também como o pomo da concórdia:

"Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia" (p. 347).

O narrador, depois de ter lançado o pomo da concórdia, continua então a narração:

“Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional” (p. 347).

“Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que estes perderam” (p.347). 

Mais uma vez o narrador recorre à Escritura, e, desta vez, para comparar as atitudes das pessoas em relação ao seu posto de alferes.

Em ambos os casos, a ironia do personagem-narrador estaria fundamentada no descompasso entre o universo sagrado e solene da Bíblia, deslocando esse universo para um fato secular, a sua nomeação de alferes; soam ridículas aos olhos do leitor a pretensão e a aspiração de grandeza da personagem Jacobina, que traz para o plano pessoal, do cotidiano, um tema que concerne ao plano religioso como um forte argumento em seu discurso.

No trecho a seguir, aliado a outros elementos que compõem a caracterização do objeto, o espelho serve também para dar ênfase ao aspecto social do personagem e seu posto de alferes.

"Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição" (p. 347).

A palavra espelho, além de dar nome ao conto e ser munida de importantes significados para o entendimento do texto, encerra aqui um outro sentido. O grande espelho, “obra rica e magnífica”, denota a vaidade do homem, que mistura a tradição do objeto com o prazer de ser visto por si próprio e pelos outros. E o fato de o espelho ter pertencido a nobres vindos com a corte de D. João VI deixa ainda mais nítida a intenção do autor em colocar a importância da tradição, da imagem na sociedade, a importância de ser visto pelo outro.

Em O Espelho, Machado trata da alma humana e também igualmente, da alma nacional do Brasil, que corre também o perigo de não existir quando se contempla ao espelho. O que ocorre neste trecho, na descrição do espelho, é uma analogia à política nacional da época:

"O espelho estava naturalmente muito velho, mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom" (...) (p. 347).

Pode-se notar que Machado traça um paralelo entre a alma de Jacobina e a alma nacional brasileira, duas imagens que se projetam ou se dissolvem na moldura velha, mas tradicional. Enquanto Jacobina precisava de sua farda de alferes para compor sua imagem, a alma do povo brasileiro talvez precisasse da tradição monárquica para sua representação no espelho da sociedade, como a velha moldura coberta de madrepérolas, mas corroída pelo tempo. Há implicitamente nesta caracterização do espelho uma crítica à oligarquia brasileira, tão presente na Monarquia quanto seria na iminente República. Era a tradição oligárquica, o poder centralizador como moldura de nossa sociedade, moldura velha mas boa, difícil de quebrar, “era a tradição”. E assim, neste conto, coexistem os focos de duas correntes da interpretação literária sobre Machado de Assis, o caráter universalizante de um lado e de outro o histórico-social.

Jacobina recorre agora à filosofia para continuar sua narrativa, e introduz em seu discurso uma anedota filosófica:

“Os fatos explicarão melhor os sentimentos; os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando”. (p. 348).

Quando o personagem diz que “um filósofo antigo demonstrou o movimento andando”, ele está se referindo à famosa anedota do filósofo Diógenes, que, andando de um lado para outro, disse: o ser é imóvel. 

A próxima citação surge com o famoso estribilho do poeta americano Longfellow:

“-Never, for ever! - For ever, never!” para representar o pêndulo do “relógio da tia Marcolina”, que feria-lhe “a alma interior”. Com esses versos, o narrador alude não somente ao poeta americano, mas também à epígrafe utilizada por este, que cita Bridaine, “L’eternité est une pendule...”, no início do poema The old clock on the stairs (Bradley, 1970, p. 1509). Jacobina utiliza-se dos versos de Longfellow para expressar o seu desespero diante do tempo, tempo que mediante seu sofrimento lhe parecia, portanto, uma eternidade.

"Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei com este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: - Never, for ever! - For ever , never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada" (p. 349).

Para o personagem-narrador, não basta apenas explicar ou narrar o fato de o relógio parecer marcar a eternidade e a estabilidade do tempo. Naquele momento,
o relógio revelava para Jacobina total angústia mediante a solidão, e, com ela, a impossibilidade de ser o “alferes”, perdendo sua alma exterior.

"Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me, orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes" (p. 350).

No trecho acima, fica claro que Machado conhecia a importância do que Freud definiria como inconsciente e a relação disso com os sonhos.

No momento de maior tensão do conto, no qual o personagem Jacobina se sente perdido no tempo e espaço, pela eternidade do “tic-tac” do relógio, o narrador
utiliza-se da citação de O Barba-Azul, de Charles Perrault. No conto francês, a esposa de Barba-Azul não consegue conter sua curiosidade e entra no único aposento em que o marido a proibe de entrar quando sai em viagem. É também na história francesa, o momento de maior tensão para a personagem, que se vê
perdida com o regresso do marido que descobre que ela entrou no aposento proibido.

Sem chances de continuar viva, ela espera ansiosamente pela chegada dos irmãos, para que a salvem da morte, e chama incessantemente pela irmã “Souer Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir?" (p. 350). “E tal qual como a lenda francesa”, na espera angustiante de Jacobina, ele não via “nenhum sinal de regresso”. E enquanto a moça da lenda francesa via “o sol que cintilava e o capim que verdejava” (Perrault, 1994, p. 97), Jacobina “quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel” (p. 350).

Nessa citação, o tempo é a vertente que se divide em dois caminhos: o tempo de Jacobina, que custa a passar e é marcado pela eternidade do “tic-tac” do relógio, e o tempo da mulher de Barba-Azul, que possui apenas um quarto de hora e nem mais um segundo para se salvar da morte. Portanto, o tempo é o principal perigo que os dois personagens enfrentam. O desespero de Jacobina diante de sua imagem difusa no espelho à espera de alguém, e da hora que demorava uma eternidade a passar, contrapõe-se ao desespero da esposa de Barba-Azul; para ela restava apenas um quarto de hora, nem um segundo a mais, para que seus irmãos chegassem e a salvassem das mãos de seu marido. Portanto, sentidos diferentes que nos levam a idéias semelhantes. A passagem rápida do tempo para a esposa de Barba-Azul acarreta na sensação da iminente morte, e no caso de Jacobina a passagem lenta do tempo contribui para a dissolução do seu “eu”.

Fonte: Revista ARGUMENTO (Revista das Faculdades de Educação, Ciências e Letras e Psicologia Padre Anchieta Jundiaí - SP,: Sociedade Padre Anchieta de Ensino) - Ano VI - nº 12 - Dezembro/2004


- Uma visita de Alcibíades (carta do desembargador X... ao chefe de polícia da corte)

- Rompe-se mais uma vez com a estrutura tradicional do conto.

- O narrador é um desembargador, que apresenta a história por meio de uma carta.

- Alcibíades é ilustre personalidade, cuja biografia foi tratada em obra do escritor romano Plutarco – séc. I d.C.

Alcibíades viveu entre 450 e 404 a.C., sendo de família ateniense rica, foi político e comandante militar que angariou fama por seus talentos e falta de escrúpulos. Teria chamado a atenção de Sócrates graças à sua beleza e inteligência, contudo, com o tempo, teria se revelado egoísta, extravagante e irresponsável, principalmente nas questões públicas, nas quais sobressaíram-se seus interesses em detrimento daquilo que interessava à coletividade ateniense.


- O desembargador revela sua admiração à Plutarco e, mais adiante, sua condição de espiritista. Ao pensar sobre Alcibíades e voltar de um devaneio, questiona-se sobre o que o grande estadista teria a dizer a respeito do vestuário moderno de então.

“Sou espiritista desde alguns meses. Convencido de que todos os sistemas são puras niilidades, resolvi adotar o mais recreativo deles. Tempo virá em que este não seja só recreativo, mas também útil à solução de problemas históricos; é mais sumário evocar os espíritos dos mortos , do que gastar as forças críticas, e gastá-las em pura perda, porque não há raciocínio nem documento que nos explique melhor um ato do que o próprio autor do ato.”

O desembargador decide então evocar o espírito do nobre ateniense, que é pronto em atendê-lo, aparecendo de carne e osso em sua sala. Está trajado à antiga.

“Era ele, não havia de se duvidar que era ele mesmo (...) como se viesse de cortar agora mesmo a famosa cauda do cão.”

- M.A. menciona o caso da “cauda do cão”, artifício usado por Alcibíades para distrair a população de modo que esquecessem problemas maiores de Atenas.

Ambas as personagens, apesar do temor e receio do desembargador, deram curso a uma conversa em grego antigo. Nela, demovido de fazer a pergunta que o levara  à evocação, o narrador respondia às perguntas do espírito a respeito da Grécia atual.
Depois de larga conversação, “para fugir”, o desembargador diz que irá a um baile. Alcibíades crê que lá se assistirá à pírrica (dança grega de temática bélica), o que leva seu interlocutor a explicar-lhe:

“Cada século, meu caro Alcibíades, muda de danças como muda de ideias. Nós já não dançamos as mesmas coisas do século passado; provavelmente o século XX não dançara as deste.”

O desembargador informa-lhe: “(...) a ciência reduziu todo o Olimpo a uma simbólica. Morto, tudo morto.” Alcibíades fica consternado, mas o desembargador lembrou-se de que o estadista  fora certa vez acusado de desacato aos deuses, o que lhe causou estranheza diante da reação de Alcibíades. Contudo, logo refletiu que o ateniense era também um hipócrita, ilustre dissimulado.
O ateniense surpreendeu novamente seu interlocutor, informando-lhe sua decisão de ir com ele ao baile. Diante da insistência do estadista, que não se importava com suas negativas, consentiu que este com ele fosse, pois tinha o plano de se desvencilhar de sua presença na rua, assim que pudesse. Alcibíades teria de trajar-se à maneira do século, ao que consentiu, ainda que com certo desdém e tecendo críticas à moda, às calças – a que chamava de canudos -, à cor preta, que estava em moda, estranhando muito a gravata e, com isso, melindrando o desembargador.
Sua vontade de ir ao baile, entretanto, era maior. Passou a vestir-se conforme os modernos padrões, porém passou mal ao vestir a casaca. Ver o outro colocando o chapéu foi demais para ele, cambaleou e caiu: estava morto. Morrera novamente.
A carta – que é o próprio conto – destinava-se, por fim, a pedir que o chefe de polícia providenciasse a remoção do corpo ao necrotério.


- Verba testamentária


- Narrador onisciente em 3ª pessoa.

- Conto marcado por digressões/comentários e reflexões do narrador.

- Tema: inveja – apresentada em forma de caricatura na figura de Nicolau.

- O conto é uma análise desse sentimento e de suas consequências no campo das relações humanas – agressividade e violência, quando incapaz de ser contido ou amenizado por quem o sente, como na infância-; e dissimulação e pseudogenerosidade, como na fase adulta. Estas últimas, no conto, ocorrem no caso da verba testamentária destinada a Joaquim Soares.

Resumo:

O início do conto seria o excerto de parte do testamento de  Nicolau B. C., no qual ele exige ser enterrado em um caixão feito pelo Sr.Joaquim Soares. O falecido, desde pequeno, era invejoso, ambicioso, malvado e impertinente, quebrava os brinquedos das outras crianças só por serem melhores do que os seus. Chegara até a espancar um colega por ter mais desempenho do que ele na escola.
Nicolau queria sempre ser superior aos outros em todos os aspectos, contudo não havia nada em que se destacasse, exceto na violência e irritabilidade. Por esse motivo, causava em sua família um profundo desgosto, levando o pai a externar esse sentimento ao afirmar ser Nicolau a desgraça da família. Ainda criança, apanhou muito, recebendo muitos castigos, o que em nada modificou-lhe o caráter. Nem professores que se propuseram a corrigi-lo por meio de castigos conseguiram tal intento.
Após a morte de seus genitores, a irmã de Nicolau se casou. Ele começou a viver sozinho desde então, incapaz de conviver com que fosse gentil e nobre. Por influência da irmã, chegou a casar, contudo seu matrimônio não resistiu à sua falta de paciência e humor irascível. Sofrendo de uma patologia no baço e recuado na solidão, foi padecendo até sua morte em 1885, quando contava com 68 anos. Deixou uma verba testamentária àquele que, segundo ele, deveria fazer seu caixão.


Trecho do início da obra:


"... Item, é minha última vontade que o caixão em que o meu corpo houver de ser enterrado, seja fabricado em casa de Joaquim Soares, à rua da Alfândega. Desejo que ele tenha conhecimento desta disposição, que também será pública. Joaquim Soares não me conhece; mas é digno da distinção, por ser dos nossos melhores artistas, e um dos homens mais honrados da nossa terra..."
Cumpriu-se à risca esta verba testamentária. Joaquim Soares fez o caixão em que foi metido o corpo do pobre Nicolau B. de C.; fabricou-o ele mesmo, con amore; e, no fim, por um movimento cordial, pediu licença para não receber nenhuma remuneração. Estava pago; o favor do defunto era em si mesmo um prêmio insigne. Só desejava uma coisa: a cópia autêntica da verba. Deram-lha; ele mandou-a encaixilhar e pendurar de um prego, na loja. Os outros fabricantes de caixões, passado o assombro, clamaram que o testamento era um despropósito. Felizmente, — e esta é uma das vantagens do estado social, — felizmente, todas as demais classes acharam que aquela mão, saindo do abismo para abençoar a obra de um operário modesto, praticara uma ação rara e magnânima. Era em 1855; a população
estava mais conchegada; não se falou de outra coisa. O nome do Nicolau reboou por muitos dias na imprensa da Corte, donde passou à das províncias. Mas a vida universal é tão variada, os sucessos acumulam-se em tanta multidão, e com tal presteza, e, finalmente, a memória dos homens é tão frágil, que um dia chegou em que a ação de Nicolau mergulhou de todo no olvido.
Não venho restaurá-la. Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito. Obra de lápis e esponja. Não, não venho restaurá-la. Há milhares de ações tão bonitas, ou ainda mais bonitas do que a do Nicolau, e comidas do esquecimento. Venho dizer que a verba testamentária não é um efeito sem causa; venho mostrar uma das maiores curiosidades mórbidas deste século. Sim, leitor amado, vamos entrar em plena patologia. Esse menino que aí vês, nos fins do século passado (em 1855, quando morreu, tinha o Nicolau sessenta e oito anos), esse menino não é um produto são, não é um organismo perfeito. Ao contrário, desde os mais tenros anos, manifestou por atos reiterados que há nele algum vício interior, alguma falha orgânica. Não se pode explicar de outro modo a obstinação com que ele corre a destruir os brinquedos dos outros meninos,”



Segue análise retirada do site Passei na Web:

O conto Verba testamentária, de Machado de Assis, centra-se no comportamento patológico de seu protagonista, Nicolau. Nele, a aparente espontaneidade decorre de procedimentos formais que, igualmente, promovem a adesão do leitor ao universo ficcional. Ainda que alicerçado na ficção, o conto revela, a partir de uma perspectiva satírica, comportamentos reais, constituindo uma alegoria da natureza egotista do ser humano.
A narração se inicia com a transcrição de uma cláusula do testamento de Nicolau B. de C., na qual exige ser enterrado em um caixão fabricado pelo Sr. Joaquim Soares, um operário humilde. A notícia se espalha pela corte e pelas províncias e é percebida como “uma ação rara e magnânima”. Entretanto, esquecido o episódio, o narrador comprova, através da exposição da vida de Nicolau, que a cláusula do testamento pode ser explicada por um problema congênito do protagonista.
A síntese da história mostra que Nicolau, desde a infância, revela um comportamento doentio: destrói os brinquedos de outras crianças que são melhores do que os seus; na escola, espanca os colegas que se mostram mais adiantados do que ele nos estudos. O sofrimento de Nicolau se acentua na idade adulta, a ponto de não poder suportar a convivência com pessoas simpáticas e nobres. Por sugestão do cunhado, que é médico, Nicolau fica isolado em um ambiente rico, onde sua auto-estima é positivamente estimulada por meio de falsas notícias ruins, publicadas em jornais também inexistentes. Apesar disso, ele piora com o passar do tempo e, quando morre, deixa uma verba para pagar um caixão de má qualidade. A irmã de Nicolau, assim como seu marido, acha o último desejo muito estranho, mas decide que a vontade do defunto deve ser cumprida.
Em Verba testamentária, o tema do comportamento doentio do indivíduo, que resulta da inveja do bem alheio, é introduzido por um enigma que o narrador se encarrega de desvendar, sendo apresentado por meio de uma personagem caricaturesca. Para conceber o conto, Machado de Assis recorreu a uma estratégia dupla: por um lado, ele investiu na verossimilhança do relato e, por outro, acentuou sua natureza fantasiosa. Para instituir os efeitos de veracidade, o escritor concebeu um narrador cuja subjetividade é perceptível e que menciona datas, nomes de logradouros do Rio de Janeiro, eventos históricos, mas que omitiu o nome completo do protagonista, a fim de proteger sua identidade, como se ele fosse real e pudesse ser reconhecido pelo leitor.
A natureza fantasiosa da narrativa é salientada, por outro lado, pelo exagero na descrição das ações e dos traços físicos do protagonista. Assim, o narrador refere que, obrigado a conter seus impulsos destrutivos, em algumas vezes, Nicolau fica “lívido, com reflexos de verde bronze” e fecha os olhos para não “arrebentar”; em outras, morde os beiços até sangrar, ou então cambaleia enquanto escorre de sua boca “um fio quase imperceptível de espuma”. Os sentimentos exagerados de inveja e de raiva equiparam Nicolau a um animal raivoso, e essas descrições ajudam a instalar a comunicação com o leitor, que visualiza as cenas e nelas não somente reconhece os recursos expressivos do escritor como também se dá conta do ridículo dos homens.
Como se constata pela leitura do conto, Machado concebeu neste, e em outros, a representação de um narrador tagarela que imprime à enunciação um tom coloquial e ironicamente íntimo e que ganha os contornos de uma subjetividade, a quem o leitor dá o direito de tudo conhecer e de se posicionar sobre aquilo que narra. Paralelamente, o conto expõe outros artifícios de estilo, além dos já citados, como imagens visualmente perceptíveis (pratos sendo atirados na cabeça dos escravos, cães sendo perseguidos a pontapés), diálogos restritos, mas situados nos momentos significativos da evolução das ações e a construção de um espaço e de um tempo que sustentam as ações como um pano de fundo, sem que esse seja ostensivo. Assim, ainda que as ações ocorram na cidade do Rio de Janeiro e que acontecimentos históricos sejam nomeados, esse aspecto, aliado às estratégias que provocam a adesão do leitor ao narrado, contribui para que a trama, em sua totalidade, transcenda o localismo, sendo reveladora de comportamentos que fazem parte da essência do homem.
A análise dos aspectos referidos permite afirmar que a verba, cujo estranho uso é justificado pelo narrador, ganha dupla significação: por um lado, ela remete a mais uma das extravagâncias do protagonista que destina dinheiro para a aquisição de um caixão de má qualidade a fim de evitar elogios ao executor da obra de marcenaria, elogios que poderiam perturbá-lo, ainda que morto; por outro lado, abstraída do testamento de Nicolau B. de C., ela aponta para a herança, transferida a todos os seres humanos que, em maior ou menor grau, carregam consigo o egoísmo e a inveja pelo sucesso de seus semelhantes. Assim, Machado de Assis denuncia aspectos negativos do ser humano, que migrariam de geração em geração. Para tanto, abre mão da seriedade e, sem uma preocupação evidente com ensinamentos morais, concebe uma personagem burlesca, permitindo que o leitor descubra, através do riso, uma das causas da infelicidade humana. Todavia, a denúncia presente em Verba testamentária não apaga a característica fundamental das narrativas de Machado: a articulação entre a aparente espontaneidade do relato, que parece instituir o convite ao passatempo e à fuga ao cotidiano, própria da oralidade, e o esmero formal, que exige o envolvimento reflexivo do leitor para que ele recrie a história que está recoberta sob aquela que é narrada.
Nesse sentido, Verba testamentária, como vários outros contos de Machado (Missa do galo, A Causa secreta, O alienista), é uma narrativa aberta, que permite ao leitor uma participação ativa na construção das significações, além de sugerir novos e inusitados sentidos a cada releitura. Devido a essa característica, o conto nega os limites do contexto estético-histórico-social sobre o qual reflete e, por isso, se oferece como adequado aos leitores da atualidade. O tema, o enigma inicial, a crítica à sociedade, o tom jocoso e irônico do narrador juntam-se à atemporalidade do conto.


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