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3 de out de 2012

Técnicas Narrativas

Textos e técnicas narrativos

Uma narrativa é um fato ou sequência de fatos reais ou fictícios contados oralmente ou por escrito.

A contação de histórias se perde na origem da humanidade, desempenhando como principal função a disseminação de conhecimento e tradição de inúmeros povos. Diferentes culturas têm se beneficiado dela a fim de garantir a propagação de valores e expressão de identidades, permeando relações significativas entre indivíduos.

As narrativas estão no cerne das religiões, das crenças, do folclore e do imaginário popular, mas também desempenham papel relevante no entretenimento e na difusão de conhecimento e informação.

De acordo com a forma como é contada uma história, suas personagens, o enredo, o tema e a função do texto narrativo, este último recebe nomes que o classificam. Alguns tipos participam mais do cotidiano coletivo, como as anedotas, notícias, as crônicas de revistas e jornais, as sinopses de filmes e os trechos narrativos dentro de reportagens. Outros pertencem a universos mais particulares, que exigem leitores mais atentos e interessados, como os romances, os contos, as fábulas, parábolas e poemas épicos.

Costuma-se afirmar que um bom contador de histórias é capaz de fazer uma história simples revelar-se como uma verdadeira joia, digna de ser recontada; já um contador menos talentoso pode transformar uma “pérola” numa narrativa chata cujo significado se perde em meio ao tédio da narração.

Existem técnicas que auxiliam o contador a atingir o objetivo de captar a atenção do espectador ou leitor. Envolvem primeiramente o foco narrativo, o tipo de narrador, o vocabulário escolhido, os níveis de linguagem, as funções de linguagem, a abordagem do enredo, os tempos verbais empregados, as descrições, o poder de síntese ou desenvolvimento de determinado tema e tudo quanto a imaginação puder criar no intuito de favorecer desde o mero entretenimento à mais profunda reflexão. Há uma passagem muito poética na Ilíada em que o eu poético, cantando em versos a saga dos gregos na guerra de Troia, interrompe a narrativa em terceira pessoa, voltada ao leitor ou espectador, para se dirigir a uma personagem, narrando a esta última o que ocorrera a ela, como se a personagem não pudesse lembrar de alguns fatos. Esse recurso, utilizado de maneira tão atípica, transforma em um breve momento o narrador em uma espécie de personagem privilegiado, que demonstra sua onisciência na história, enquanto o leitor-espectador, por sua vez, vê-se na posição de testemunha do diálogo,“vivendo” a Ilíada no presente, como se estivesse lendo-vendo uma peça de teatro.

Um outro recurso muito interessante empregado por alguns autores são as digressões, pausas no fluxo narrativo original nas quais se apresentam comentários, reflexões ou até outras histórias, enriquecendo de alguma forma o que é contado ao conferir-lhe novo ou mais profundo significado. A escolha pelo uso do discurso direto ou do discurso indireto, bem como do discurso indireto livre, pode fazer a diferença entre um texto pobre, mediano ou original.

Apesar de ser desejável que um candidato não só seja capaz de identificar a utilização de alguns recursos expressivos próprios à narrativa como também consiga empregá-los com originalidade, de forma alguma significa que o vestibulando seja obrigado a produzir verdadeiras obras-primas como os escritores consagrados. A prática e a vontade de aprimorar-se na produção desse tipo textual, no entanto, costumam dar bons e eficientes resultados a médio e longo prazos.

Observe as explicações e exemplos a seguir e então pratique.

TÉCNICAS PARA APRIMORAR TEXTOS NARRATIVOS

DESCRIÇÃO: existem textos descritivos e textos narrativos, no entanto isso não impede que estes últimos possam apresentar trechos descritivos que ajudem o leitor a imaginar as cenas e personagens que compõem o enredo de uma história. Fazer uma descrição qualquer também não garante que o texto narrativo ganhará em qualidade. É comum confundir descrição com o mero uso de adjetivos, quando na verdade a descrição tem por principal objetivo criar além de imagens na mente do leitor, também sensações e, se possível, sentimentos. Para isso, pode-se contar com advérbios, verbos, sinestesia, hipérboles e algumas figuras de linguagem.

Nos exemplos, partindo de uma frase simples, tentaremos substituir as palavras grifadas por descrições e narrações que recriem de maneira mais viva a ideia que se deseja transmitir.

a) O imenso quarto tinha um aspecto repugnante.

O intuito será fazer que o leitor chegue a ideia de “imenso” e de “repugnante” sem que os adjetivos sejam usados:

As infiltrações desenhavam estranhas espirais pelas paredes, verdadeiros caminhos escuros e esverdeados, cobertos por um bolor imundo que enegrecia não somente os cantos, que já não se enxergavam, mas toda a superfície de um quarto que já servira a reis. A umidade do ar aderia asqueirosamente à pele. O odor que a princípio causava náuseas logo desaparecia, dando lugar a uma sensação intensa de asfixia. Não houvesse ratos e outros estranhos insetos fazendo dali sua confortável e alegre morada, e deixando no chão toda sorte de restos de incontáveis naturezas, seria possível afirmar com certeza que nada poderia habitar ou mesmo passar poucos momentos dentro de um local como aqueles.

Como é possível observar, em torno de uma simples ideia é possível desenvolver ou resumir um parágrafo, conforme a quantidade de linhas que se deseje ocupar, bem como a expressividade que se queira conferir ao texto. Durante a descrição, exploraram-se diferentes sentidos, como: visão, olfato e tato.

b) O garoto, ao entrar, vencendo a repulsa inicial com a força da curiosidade, olhava atentamente cada detalhe do cômodo.

Agora, o parágrafo será desenvolvido a partir do advérbio “atentamente”.

O garoto, ao entrar, vencendo a repulsa inicial com a força da curiosidade, começou a investigar o ambiente, deixando que se formasse em sua mente, primeiramente, uma visão panorâmica de todo o cômodo. A seguir, fixou o olhar em uma pequena fenda no teto, de onde um dia pendera um lustre de grandiosas proporções. Havia resquícios da presença de ninfas, fontes, ovelhas e pastores que um dia ornaram belamente o céu do quarto e deram vida as suas paredes, agora sepulcrais. Nenhum detalhe era perdido pelo menino, que franzia o cenho buscando desenhar com a mente as linhas plenas de suavidade já perdidas para a ruína que cobrava seu tributo.

DISCURSO DIRETO: é a apresentação das falas e pensamentos como se fossem emitidos diretamente pelas personagens. É comum utilizar-se o travessão ou aspas.

Embora as aspas possam ser utilizadas para apresentar falas, em um texto em que haja falas e pensamentos, as aspas servem para indicar os pensamentos, permitindo uma clara distinção em relação aos travessões.

a) “Quem um dia possuiu aquele quarto, permitindo que sua imaginação, levada pelas musas de delicados traços, lhe contasse histórias para embalar os mais doces sonhos? Quem havia morado naquele palácio?” – pensava o jovem.

b) O silêncio, como o de um mausoléu, incomodava-o. __ Olá! – falou.

c) __ Olá, olá, olá! – respondeu-lhe o eco de todo o quarto, dos corredores e das salas.

DISCURSO INDIRETO: é o recurso utilizado pelo narrador para apresentar a fala das personagens de modo indireto, ou seja, narra-se o que foi dito ou pensado. Por exemplo, em vez de escrever: “O menino disse: __ Estou com medo!”, escreve-se: “O menino disse que estava com medo.”

a) Após a resposta do eco, já esperada, alguém mais o cumprimentou, desejando-lhe que fosse boa a noite.

DISCURSO INDIRETO LIVRE: ocorre geralmente com o narrador em terceira pessoa. Nele misturam-se as emoções ou pensamentos da personagem com as do narrador. Distingui-se do discurso direto graças ao não uso de aspas ou travessão.

a) Após a resposta do eco, já esperada, alguém mais o cumprimentou, desejando-lhe que fosse boa a noite. Que susto!

b) Um súbito calafrio apoderou-se dele. Quem estaria ali? Que tremenda brincadeira de mau-gosto!

FOCO NARRATIVO: ao expressar-se, o narrador é obrigado a posicionar-se em relação ao que conta. Ele pode apresentar-se como personagem da história, empregando, portanto, a 1a pessoa (eu ou nós), sendo assim um narrador-personagem; ou pode também narrar a história sem participar dela, em 3a pessoa (ele/a; eles/as), sendo chamado narrador-observador. Não é impossível encontrar os dois tipos de narrador em um só texto. Em todos os exemplos anteriores, foi utilizado o narrador em 3a pessoa. Unindo-se os parágrafos, um texto vai começando a tomar forma. Nele, vamos inserir um pequeno parágrafo em 1a pessoa.

a) Desculpe-me interromper assim a história, mas devo admitir que aquilo que vou lhes contar agora é somente uma tentativa de reproduzir da maneira mais fiel possível o que o próprio garoto me disse. Não creio que ele houvesse inventado, uma vez que não parecia dissimular fosse na escolha das palavras ao contar o fato, fosse no medo evidente em seus olhos e no tom de sua voz.

FUNÇÃO APELATIVA: é a função da linguagem destinada a estabelecer uma relação direta com o leitor, geralmente com o intuito de persuadi-lo de algo. No exemplo anterior, o narrador-personagem utililizou-a para estreitar seu laço com o leitor: “Desculpe-me (...) aquilo que vou lhes contar”.

A função apelativa não é obrigatória nem tão comum a textos narrativos, mas, se bem utilizada, pode contribuir para criar originalidade na narrativa.

DIGRESSÃO: é um comentário ou reflexão. No texto narrativo, a digressão interrompe o fluxo narrativo e confere maior profundidade ao texto. O próprio exemplo anterior, no qual se revela um narrador-personagem, consiste em uma digressão. Mas propomos outra logo a seguir.

a) Segundo o jovem, a voz que o cumprimentara acompanhou-se de uma brisa suave, mas gélida, e de uma sensação tão estranha, que ele se sentira impelido a correr para fora do quarto, chegando a uma antessala do palácio. Ali, para sua surpresa, um espectro, recostado em um velho divã, com olhar melancólico deixava transparecer um suave e enigmático sorriso. Isso bastaria para que eu corresse para fora dali o mais rápido possível! Mas quem estava ali era um menino que queria sugar toda a seiva da vida, ainda que quem lhe visitasse fosse a própria morte...

b) Claro que ele também sentia medo, talvez até pavor, porém ele não soube dizer se foi a paralisia do susto ou o ímpeto da curiosidade, ou mesmo o magnetismo que tal figura exercia sobre ele... fato é que ele permaneceu imóvel e não fez outra coisa senão ficar e ouvir atentamente o que lhe disse o fantasma vestido de trapos reais. Devo ressaltar que o garoto nunca ouvira falar de Shakespeare, tampouco era dado a fantasiar coisas. E isso me leva a refletir: não será a fantasia às vezes algo feito da mais pura e concreta realidade? - mas voltemos às palavras do sábio espectro, pois não quero cansá-los com minhas divagações tolas.

Leia agora todo o conto:

Lições de um espectro

Eis uma pequena história sobre um palácio, um menino e um rei. Primeiro vou apresentar-lhes o cenário, então, o menino e, mais adiante, o rei. A primeira impressão talvez não seja das melhores, entretanto peço que persistam na leitura, pois o que o rei tem a dizer é importante. Não quero que creiam, somente que leiam...

As infiltrações desenhavam estranhas espirais pelas paredes, verdadeiros caminhos escuros e esverdeados, cobertos por um bolor imundo que enegrecia não somente os cantos, que já não se enxergavam, mas toda a superfície de um quarto que já servira a reis. A umidade do ar aderia asqueirosamente à pele. O odor que a princípio causava náuseas logo desaparecia, dando lugar a uma sensação intensa de asfixia. Não houvesse ratos e outros estranhos insetos fazendo dali sua confortável e alegre morada, e deixando no chão toda sorte de restos de incontáveis naturezas, seria possível afirmar com certeza que nada poderia habitar ou mesmo passar poucos momentos dentro de um local como aqueles.

O garoto, ao entrar, vencendo a repulsa inicial com a força da curiosidade, começou a investigar o ambiente, deixando que se formasse em sua mente, primeiramente, uma visão panorâmica de todo o cômodo. A seguir, fixou o olhar em uma pequena fenda no teto, de onde um dia pendera um lustre de grandiosas proporções. Havia resquícios da presença de ninfas, fontes, ovelhas e pastores que um dia ornaram belamente o céu do quarto e deram vida a suas paredes, agora sepulcrais. Nenhum detalhe era perdido pelo menino, que franzia o cenho buscando desenhar com a mente as linhas plenas de suavidade já perdidas para a ruína que cobrava seu tributo.

“Quem um dia possuiu aquele quarto, permitindo que sua imaginação, levada pelas musas de delicados traços, lhe contasse histórias para embalar os mais doces sonhos? Quem havia morado naquele palácio?” – pensava o jovem.

O silêncio, como o de um mausoléu, incomodava-o. __ Olá! – falou.

__ Olá, olá, olá! – respondeu-lhe o eco de todo o quarto, dos corredores e das salas.

Após a resposta do eco, já esperada, alguém mais o cumprimentou, desejando-lhe que fosse boa a noite. Que susto! Um súbito calafrio apoderou-se dele. Quem estaria ali? Que tremenda brincadeira de mau-gosto!

Desculpe-me interromper assim a história, mas devo admitir que aquilo que vou lhes contar agora é somente uma tentativa de reproduzir da maneira mais fiel possível o que o próprio garoto me disse. Não creio que ele houvesse inventado, uma vez que não parecia dissimular, fosse na escolha das palavras ao contar o fato, fosse no medo evidente em seus olhos e no tom de sua voz.

Segundo o jovem, a voz que o cumprimentara acompanhou-se de uma brisa suave, mas gélida, e de uma sensação tão estranha que ele se sentira impelido a correr para fora do quarto, chegando a uma antessala do palácio. Ali, para sua surpresa, um espectro, recostado em um velho divã, com olhar melancólico deixava transparecer um suave e enigmático sorriso. Isso só bastaria para que eu corresse para fora dali o mais rápido possível! Mas quem estava ali era um menino que queria sugar toda a seiva da vida, ainda que quem lhe visitasse fosse a própria morte...

Claro que ele também sentia medo, talvez até pavor, porém não soube dizer se foi a paralisia do susto ou o ímpeto da curiosidade, ou mesmo o magnetismo que tal figura exercia sobre ele... fato é que ele permaneceu imóvel e não fez outra coisa senão ficar e ouvir atentamente o que lhe disse o fantasma vestido de trapos reais. Devo ressaltar que o garoto nunca ouvira falar de Shakespeare, tampouco era dado a fantasiar coisas. E isso me leva a refletir: não será a fantasia às vezes algo feito da mais pura e concreta realidade? - mas voltemos às palavras do sábio espectro, pois não quero cansá-los com minhas divagações tolas.

__ Reparaste naquele quarto? – perguntou sua majestade sem esperar a resposta do menino.

__ Quantos sonhos tive ali... Na infância, as musas, os pastores, as ovelhas. Na adolescência, o poder. Já adulto, nada sobrava para os sonhos: ser rei é ser escravo!

__ Sonha, meu jovem! Vive e não coloques a confiança de tua alegria nas coisas passageiras deste mundo. Como vês, hoje este palácio serve a ratos e insetos, e o templo do luxo tornou-se templo de ruínas. Cedo ou tarde, as pequenas criaturas roem as coisas que nós, que nos cremos grandes, deixamos para trás como monumentos de nossa eterna efemeridade. Dedica-te ao riso, ao canto, às artes, ao conhecimento e, sobretuto, à amizade; fia-te nos bons e nos virtuosos, afasta-te da maldade e do delito. Olha para mim e percebe que tudo se faz pó, mas o ser continua além dos objetos, da ganância e da vaidade. Tudo o que levarás deste mundo será aquilo que puderes carregar em tua consciência e teu coração.

Havia meiguice no olhar do fantasmagórico rei... foi quando ele simplesmente sumiu.

O garoto não conhecia a palavra meiguice assim que me contou o ocorrido, porém, anos mais tarde, foi dessa maneira que descreveu para mim e para seus filhos novamente a cena. Meus netos adoraram...

__ Essa história é verdade, papai? – lhe perguntaram.

__ Claro que é, principalmente as palavras do rei..

http://www.textosepre-textos.blogspot.com/



Lendo atentamente o conto, outros recursos podem ser identificados, como a função metalinguística, principalmente no primeiro parágrafo, o uso de vocabulário mais comum ao universo da escrita e a utilização do pretérito mais-que-perfeito, praticamente ausente da linguagem cotidiana, mas importante em textos narrativos. Algumas metáforas também estão presentes.

Quanto à história, delimitou-se um espaço principal, no qual ocorreu uma sequência de ações que desencadearam um clímax e um desfecho, construindo-se, dessa forma, o enredo. De acordo com suas características, esse texto pode receber o nome de narração ou conto.

É frequente em alguns vestibulares aparecerem propostas de “narração” as quais seguem, na verdade, a estrutura do conto. Ou seja, propõe-se que o candidato escreva uma história curta, com poucos personagens, cujas ações ocorram em torno de um conflito (situação ou ser que se opõe à concretização do desejo do protagonista) e se concentrem em um espaço e tempo geralmente bem determinados. Espera-se que ao final, no qual frequentemente está a solução do conflito, haja algo de original, fugindo ao desfecho “fácil” e desestimulante.

2 comentários:

Prof. Laelson José disse...

Parabenizo o querido amigo por apresentar um conteúdo riquíssimo para a intelectualidade nacional. Está apresentando uma contribuição sem igual para o conhecimento literário. Obrigado por não ter deixado em sua gaveta!

Leonardo Cassanho Forster disse...

Obrigado, caro prof. Laelson, - suas palavras são um ótimo incentivo para que eu continue a acreditar que este blog cumpre uma função social.
Disponha do que lhe for útil.

QUIZ: POR QUE OU POR QUÊ?

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